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Caso Bel: Especialistas alertam para riscos da exploração infantil

Quando a criança é forçada por alguém a fazer coisas contra vontade, pode desenvolver ansiedade, quadro depressivo ou estresse pós-traumático

Depois que internautas criaram a campanha “#SalveBelparaMeninas” e denunciaram a mãe da youtuber Bel, de 13 anos, do canal “Bel para Meninas”, por possíveis maus-tratos, especialistas em infância e adolescência ouvidos pelo R7 destacaram alguns problemas que a criança pode estar exposta, entre eles a exploração comercial da imagem e distúrbios de ansiedade.

De acordo com o médico psiquiatra e especialista em infância e adolescência do Instituto de Psiquiatria do HC Ênio Roberto de Andrade, Bel precisaria receber um acompanhamento psicológico, já que é uma figura pública nas redes sociais desde os 6 anos. Mesmo sem ter conversado com a adolescente, ele alerta para possíveis problemas.

“Quando a criança é forçada por alguém a fazer coisas contra sua vontade, pode vir a ter ansiedade, aumentam as chances de desenvolver um quadro depressivo, está mais suscetível ao uso de drogas ou estresse pós-traumático [quando reviver ou provar algo guardado na memória]”, explicou o psiquiatra.

A adolescente tem 7,5 milhões de seguidores no Youtube e outros 1,3 milhão no Instagram.

Nas filmagens, a mãe, Francinete Peres, aparece rindo da filha em situações constrangederas. Em uma delas a garota chega a vomitar. Em outras, Bel fica desconfortável com a exposição porque quer usar uma mochila, mas Francinete pergunta aos seguidores qual a filha deve usar. A adolescente insiste e parece ser repreendida, tanto que mostra a mão como num sinal de “pare”. A mãe não aparece na imagem.

Segundo Dalka Chaves de Almeida Ferrari, que é psicóloga e coordenadora do Centro de Referência às Vítimas de Violência do Instituto Sedes Sapientiae, é preciso pressionar por uma investigação do caso na Justiça, uma vez que “a vida da menina ganha um drama com a exploração da imagem da criança”.

A psicóloga afirma que, quando a criança dá sinais de que não aceita a situação, a mãe tem que ser denunciada e corre o risco de perder a guarda temporariamente: “São exemplos de que a criança é subjugada sob ameaça, violência física e até cárcere privado porque ela não pode decidir o que fazer por causa da exploração comercial da imagem dela. A mãe decide tudo o que ela vai usar, até uma bolsa”, exemplificou Dalka Chaves.

De acordo com a coordenadora, até a vida social da criança é impactada porque os pais não querem que seja divulgado ou conhecido algo que possa prejudicar a imagem dela junto ao público.

Youtuber

Bel é youtuber desde criancinha. As publicações eram feitas com a supervisão da mãe. O canal cresceu e a irmã mais nova, Nina, passou a participar também nas redes.

Francinete Peres chegou a ser questionada sobre o conteúdo dos vídeos permanecer infantil com o passar dos anos, apesar de a menina ser uma adolescente e, em vídeo, respondeu: “Ela não se sente adolescente, deixa ela viver como criança”.

Para o psiquiatra Ênio Roberto de Andrade, os pais têm dificuldade de ver que os filhos cresceram, ainda mais nesse caso em que Bel faz o papel da criança desde cedo no Youtube: “Caberia à filha dizer aos pais que aquela situação é inadequada para a idade, ou a roupa, e falar que não se sente mais confortável em gravar certos vídeos”.

A mãe

Francinete não quis dar entrevista para o programa Cidade Alerta da Record TV, mas, no Instagram, ela escreveu nesta terça-feira (19): “Enquanto algumas pessoas espalham o ódio gratuito, nós seguimos acreditando na família e no amor. Que nossa felicidade chegue ao coração de vocês!”.

Para os especialistas, chama ainda mais a atenção o comportamento da mãe nos vídeos. Ela aparece rindo enquanto a filha é colocada em situações desagradáveis, como ao provar um líquido ruim e vomitar, ao ter que comer polvo cru ou quando a mãe enfia algo na boca da filha e diz: “Engole e morre engasgada”.

“É estranho que a mãe se divirta com esse tipo de situação. É dever dos pais proteger os filhos, deixá-los em segurança, e não expor ou se divertir com a criança em risco”, destacou o psiquiatra.

Para Dalka Chaves, o crescimento do número de seguidores estimula ainda mais a exploração da imagem da criança, por isso a mãe aposta na continuidade dessas atitudes. “Essa mãe foge dos questionamentos e tem que ser avaliada porque pode ter distúrbios afetivos e não ser capaz de criar as filhas”, ressaltou.

Estatuto da Criança

Segundo o artigo 231 do ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), “submeter criança ou adolescente sob sua autoridade, guarda ou vigilância a vexame ou a constrangimento” tem como pena a detenção de seis meses a dois anos.

Nas redes sociais, os internautas cobram uma investigação por parte da polícia. Em 2016, o Ministério Público instaurou inquérito para apurar se o conteúdo do canal era usado pela família para exploração comercial, isto é, para fins lucrativos, uma vez que ela é criança. De acordo com a Record TV, o caso está agora no Ministério Público Federal após um recurso em Brasília.

As pessoas podem denunciar os vídeos ou o canal junto às próprias empresas gestoras das redes sociais ou do YouTube e também para a organização Safernet, que tem parceria com o Ministério Público Federal para verificar crimes e infrações cometidas por meios cibernéticos.

Os internautas podem ainda denunciar pelo Disque 100, que recebe relatos de violações aos direitos humanos, principalmente de crianças e adolescentes.

De acordo com Ariel de Castro Alves, advogado especialista em direitos da criança e do adolescente e conselheiro do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), o pai e a mãe de Bel podem ser acusados de “descumprimento dos deveres do poder familiar, previstos no Código Civil e no ECA, de amparar, educar, cuidar e mantê-la protegida de qualquer situação de risco”.

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