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Com maioria mais apertada da democracia, Sánchez é confirmado primeiro-ministro na Espanha

Representante do Partido Socialista teve 167 votos favoráveis e 165 contrários; no novo conselho de ministros deve estar o sociólogo Manuel Castells, professor da Universidade de Berkeley

MADRI — Com a menor margem de votos favoráveis desde a transição democrática pós-franquismo, Pedro Sánchez (Partido Socialista, Psoe) saiu vitorioso do debate de investidura na manhã desta terça-feira e se tornou primeiro-ministro da Espanha depois de quase nove meses de interinidade. Ante a fundamental abstenção dos 13 deputados do partido soberanista Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), o chefe do Executivo obteve maioria simples de 167 a 165.

Foi a terceira jornada de ásperos debates entre representantes do Parlamento mais fragmentado da história do país, com um coeso bloco formado pela direita e a ultradireita — mais alguns partidos regionais e independentistas de ideologias variadas — opondo-se à inédita coalizão formada por Psoe e Unidas Podemos (UP, esquerda).

Sem maioria absoluta (176 votos, ou metade do Parlamento mais um) requerida na primeira votação, domingo, o premier só precisava da maioria simples nesta terça.

Pairava o medo de que algum membro das bancadas da coalizão rompesse a disciplina de voto, perspectiva constantemente alentada pela direita. E o resultado apertado só foi possível após Sánchez fechar, semana passada, um acordo de abstenção com a ERC. Em troca, o partido nacionalista exigiu a criação de uma mesa de negociação entre os governos central e catalão para discutir saídas à crise separatista.

— Nossa aposta é pelo diálogo, pelo desbloqueio. Avançar formando uma coalizão de progresso e justiça social. Por si só, essa coalizão inédita na história democrática do nosso país é a única opção de governo possível, depois de cinco eleições, duas nacionais, no último ano. Em todas, saímos vitoriosos. Cinco eleições com o mesmo resultado não são coincidência, se chamam democracia. A direita deve aceitar — afirmou o premier.

Para analistas, a ausência da maioria absoluta necessária para aprovar orçamento e reformas faz prever um governo fragilizado.

— A aprovação do orçamento será o primeiro e maior desafio. Precisarão novamente dos votos de soberanistas. Cada passo deverá ser negociado. O parlamento mais fragmentado da história obrigará os políticos a fazerem algo a que não estão habituados: política — disse Lluis Orriols, cientista político e professor da Universidade Carlos III de Madri.

Para driblar a falta de assentos, Sánchez espera poder seduzir diferentes grupos em torno de suas propostas. Entre elas, aumentos expressivos do salário mínimo e das aposentadorias; renda mínima para famílias pobres; mais impostos para grandes fortunas; controle da subida dos aluguéis nas grandes cidades; ações para mitigar as mudanças climáticas; e iniciativas para reduzir a desigualdade de gênero.

Na tarefa, espera contar com a ajuda de um time de notáveis, novamente com a ampla maioria feminina que caracterizou sua primeira etapa no governo. No novo conselho de ministros deve estar o sociólogo Manuel Castells, professor de sociologia e urbanismo na Universidade de Berkeley, nos Estados Unidos. Indicado pela seção catalã do UP, espera-se que ele seja o titular da nova pasta de Universidades.

Teórico da sociedade da informação respeitado mundialmente, autor ou coautor de mais de 45 livros, Castells pede uma radical modernização da universidade presencial para fortalecê-la ante o avanço dos modelos digitais de ensino.

Estudioso do Fórum Social Mundial de Porto Alegre e do movimento 15-M (dos indignados espanhóis pós-crise de 2008), que derivou no surgimento do Podemos, o catedrático os analisou na obra “Redes de indignação e esperança – Movimentos sociais na era da internet” (Zahar). Durante a última eleição brasileira, exortou intelectuais nacionais a se mobilizarem para impedir a vitória de Jair Bolsonaro.

Outros nomes do conselho de ministros serão o de Pablo Iglesias, líder do UP e vice-primeiro-ministro, considerado o artífice do programa de governo marcadamente progressista; e o de Nadia Calviño, ministra da Economia com experiência na burocracia de instituições europeias e tida como uma moderada afim ao mercado e defensora de políticas mais ortodoxas.

Apesar disso, representantes da direita durante o debate desta terça-feira previram um “desastre econômico” pela disposição do governo de coalizão de aumentar os gastos sociais.

— A esquerda, como sempre, vai destruir o bom trabalho que nós (do Partido Popular, de direita) fizemos. Seus sócios representam a negação da democracia. Sua pátria é o senhor mesmo — atacou Pablo Casado, líder da formação que tinha o poder até junho de 2018, quando um voto de censura no parlamento decorrente de uma condenação da legenda por corrupção derrubou o premier Mariano Rajoy e permitiu a ascensão de Sánchez.

Tom ainda mais apocalíptico teve Santiago Abascal, presidente do Vox, o partido de ultradireita que é a terceira maior bancada do Congresso, com 52 assentos. Além de prever o “fim da Espanha” por conta do acordo feito entre a coalizão PSOE-UP e partidos regionais soberanistas, desfiou alguns dos mantras ideológicos da sua legenda. Denunciou “manadas de imigrantes que estupram espanholas”, criticou a destruição da família e dos valores conservadores, bem como os “ataques ao rei e à monarquia” feitos pela esquerda e associou o PSOE ao ETA, extinto partido terrorista basco. Instituições europeias tampouco escaparam.

— O Parlamento Europeu voltou a nos humilhar. A Europa não respeita nossa soberania — disse Abascal, referindo-se à decisão de Estrasburgo de ratificar como eurodeputado Oriol Junqueras, preso e condenado a 13 anos de prisão por participar da organização de um plebiscito separatista em 2017 na Catalunha.

Pablo Iglesias, em sua intervenção, respondeu às críticas da direita e da ultradireita:

— Recebi uma mensagem agora pelo celular de Rosa Lluch, filha do assassinado por ETA Ernest Lluch, dirigida a vocês da bancada de PP e Vox. Ela diz: “Não falem em nome das vítimas do terrorismo. Basta de usar nossa dor em seu benefício”. Sobre a monarquia, se querem defendê-la, evitem que se identifique com os senhores. Se algo sabia Juan Carlos I, que vinha de onde vinha e foi rei como foi (colocado no poder pelo ditador Francisco Franco), era que somente ao se afastar da direita a monarquia poderia sobreviver.

Tanto ele como o agora premier Sánchez citaram reiteradamente os coletivos LGBTI, as mulheres, as mudanças climáticas — que chamam de emergência — e os pobres. Marcaram, assim, a linha-guia de uma legislatura que se configura como acentuadamente de esquerda. Desde que, é claro, sua apertada maioria lhe permita resistir às previsivelmente duras pressões da oposição.
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