Internacional

Crise na Venezuela abre brecha para o tráfico de pessoas

CHAGUARAMAS, TRINIDAD E TOBAGO – Ela escapuliu da casa quando ainda estava escuro, sem avisar a mãe. Dezesseis anos e faminta, resolveu seguir os homens que haviam prometido trabalho e comida. Em vez disso, eles a tiraram clandestinamente da Venezuela por mar, com a intenção de obrigá-la a ir para um bordel em Trinidad.

A bordo de um barco pesqueiro, a garota, Yoskeili Zurita, disse que encontrou com dezenas de outras mulheres, inclusive sua prima. Mas o barco superlotado, que partiu a toda velocidade – virou ao deparar-se com uma onda repentina.

“Minha prima não sabia nadar. Olhou para mim e disse que não sabia nadar”, lembrou Yoskeili, que passou dois dias agarrada ao casco virado no estreito entre Trinidad e a Venezuela antes de ser encontrada por pescadores. Ela nunca mais viu a prima.

O barco afundou com 38 passageiros no final de abril. Só nove pessoas sobreviveram, entre elas Yoskeili e outras mulheres que, segundo as autoridades, foram vítimas de uma gangue que se dedica ao tráfico de pessoas.

Yoskeili disse que foi abordada por um contrabandista chamado Nano, posteriormente identificado pelos promotores venezuelanos como Dayson Alexander Alleyne, de 28 anos, preso como integrante de um bando que se dedicava a esse tipo de tráfico. A menina teve pouco tempo para decidir, o barco sairia na noite seguinte para Trinidad.

“Eles disseram que, assim que chegássemos lá, encontraríamos muita comida”, contou Yoskeili.

Desembarcaram na cidade pesqueira de Güiria, e Yoskeili perguntou às outras mulheres que tipo de trabalho elas fariam na ilha. “Todas as moças do barco disseram que seríamos prostitutas”.

Outras ficaram tão surpresas quanto ela. A cabeleireira Yubreilis Merchán achava que a levariam para ver a mãe em Trinidad. E continuaram embarcando mulheres e meninas.

“Éramos muitas. E falamos que a água estava entrando no barco, mas o barqueiro disse que era normal”, contou Yubreilis, acrescentando que tentaram tiram a água com um balde.

A certa altura, o motor parou. O barco encheu de água, então afundou e depois virou.

O professor Salvador Díaz, cuja filha Oriana também estava na embarcação, recebeu um telefonema dando a notícia. Oriana, mãe solteira com dois filhos para alimentar, fugiu por causa da falta de comida. Ela disse que iria a Trinidad e de lá mandaria dinheiro para a família.

Díaz foi à capitania dos portos. Dezenas de parentes das moças desaparecidas estavam acompanhando as buscas por sobreviventes. Mas não havia qualquer movimentação neste sentido. “Eles falaram que não tinham gasolina”, disse Díaz.

Os pescadores então organizaram uma busca com dinheiro do próprio bolso. Um homem que voltava de uma tentativa de resgate disse a Díaz que só acharam corpos na água.

Yubreilis Merchán e outras sobreviventes nadaram até a ilha desabitada de Patos. Mas voltaram para a água a fim de serem mais visíveis para os homens nos barcos, e finalmente foram resgatadas.

Em outra parte do estreito, Yoskeili contou que enquanto estava na água começou a ter alucinações, e em certo momento achou que havia chegado à praia.

Ficou inconsciente, flutuando perto de outras passageiras, mas algumas foram levadas mais longe no mar pelas correntes. Dois dias depois, um barco de resgate as pegou a bordo.

Na praia, Díaz estava convencido de que sua filha havia morrido. Mas no mesmo dia em que as mulheres foram encontradas com vida na Ilha dos Patos, uma ambulância passou a toda velocidade por ele. Um barco de pesca havia encontrado sua filha Oriana na água; ela ainda respirava, ao lado dos restos do naufrágio.

Exploração sexual

Em Port of Spain, Trinidad, o dono de um bar que pagara para trazer uma das mulheres afogadas para seu estabelecimento para trabalhar como prostituta continuava com suas ocupações, olhando fotos de menores venezuelanas em um celular. Explicou que o acordo que ele tinha com as mulheres venezuelanas as obrigava a trabalhar para ele.

Ele costuma pagar as passagens delas ao barqueiro, confisca seus passaportes e os devolve somente depois que elas pagaram muitas vezes mais do que ele gasta para trazê-las clandestinamente, afirmou. O acordo funcionava com a ajuda da polícia de Port of Spain e a Guarda Costeira de Trinidad, que, segundo ele, também eram pagas.

Três proprietários de barcos comerciais em Trinidad e um quarto na Venezuela confirmaram que haviam feito os pagamentos para levar prostitutas da Venezuela, ou haviam testemunhado estes pagamentos de outros barqueiros que levavam mulheres a Trinidad.

“Tínhamos grande esperança em Oriana”, disse o pai. “Ela poderia sustentar todos nós em Trinidad. Mas o remédio foi pior do que a doença”. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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