Educação

Escolas estaduais retomam a tradição dos grêmios estudantis com pautas atuais

Após um esvaziamento das entidades, reduzidas a 130 no ano passado, alunos ocupam 957 das 1.222 unidades

RIO — Erguido há 36 anos, o Ciep José Maria Nanci, que atende à comunidade da Reta Velha, uma das mais carentes de Itaboraí, inaugurou na semana passada sua primeira rádio. A emissora foi idealizada, projetada e construída pelos oito alunos do novíssimo grêmio estudantil da escola. A novidade tem animado o intervalo entre as aulas e ajudado a reter os mais de 360 alunos durante todo o turno.

Algumas agendas são comuns entre os grêmios, como a procura por cursos bilíngues, profissionalizantes e de empreendedorismo. A cerca de 35 quilômetros dali, o Ciep Zuzu Angel, o maior e mais antigo de São Gonçalo, também empossou recentemente seu grêmio. Ali, a turma já está fechando parceria com o consulado do Equador para a realização de um curso bilíngue e promove, nesta segunda-feira, um encontro regional de grêmios e autoridades em educação. Entre os convidados está o próprio cônsul.

As duas iniciativas são um sinal da retomada, com toda a força, dos grêmios estudantis, após um esvaziamento que culminou, no ano passado, com a permanência de apenas 130 representações nas escolas da rede estadual, segundo a Secretaria de Educação. Agora, 957 das 1.222 unidades já têm um grêmio para chamar de seu — um crescimento, em um ano, de mais de 600%. Ninguém sabe ao certo por que os jovens voltaram a ter interesse pela atividade, mas não há dúvidas de que houve um “empurrãozinho” da direção em algumas escolas.

Foi o que aconteceu no Ciep José Maria Nanci, quando os amigos Gabriel Bousquet e Jonathan Viana, que vivem numa região onde a água vem de fosso e não há rede de esgoto, resolveram, no início do ano, criar um projeto para combater a depressão na escola. A diretora da unidade, Arlene Alves Galvão, logo sugeriu que os jovens, ambos de 17 anos, formassem um grêmio. Eles ganharam a disputa entre duas chapas e hoje trabalham não só pela representação dos direitos dos alunos na escola, mas também pela integração com a comunidade:

— Fazemos campanhas de doação de sangue, realizamos eventos abertos para a comunidade e estamos buscando donativos no comércio para fazer uma grande festa para as crianças. Hoje temos acesso até mesmo à Secretaria de Educação, conhecemos o secretário. Isso vem aumentando a esperança de mudar a situação da nossa comunidade — diz Gabriel.

Os novos grêmios estão sendo considerados a maior ferramenta da Secretaria de Educação para o combate à violência nas escola e ao bullying, e também para o desenvolvimento de políticas públicas que ajudem a qualidade da educação pública do estado a sair do vermelho. De acordo com o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) de 2017 (último divulgado), o Rio de Janeiro está em 17º lugar, junto com os estados do Piauí, Amazonas e Roraima.

— Defendemos a participação do aluno como parte da solução. A ideia é que ele acompanhe o orçamento da escola, participe da escolha de programas e projetos dentro do ambiente estudantil e seja também um mediador de conflitos. Queremos que, desde os 11 anos, o aluno aprenda a mediar, porque a mediação de conflito evita que pequenos problemas se transformem em atos de violência — defendeu o secretário estadual de Educação, Pedro Fernandes, que vem se reunindo com os grêmios.

RI Rio de Janeiro (RJ) 09/08/2019 Novos Grêmios. Local: CIEP 309 Zuzu Angel, Arsenal, São Gonçalo Foto Roberto Moreyra / Agencia O Globo ROBERTO MOREYRA / Agência O Globo
A estratégia tem dado resultado. O novo grêmio do Ciep Zuzu Angel já experimentou a importância da mediação de conflitos. No primeiro semestre, a entidade organizou um campeonato de futebol que quase acabou em briga.

— Tudo ia bem até que um time começou a perder para o outro na semifinal. Começaram as hostilidades no campo e também na torcida. E aí eles começaram a dizer “na final a gente se pega”, este tipo de ameaça. A gente percebeu que a situação estava saindo de controle — contou Claudionei Abreu da Silva Júnior, presidente do grêmio, que, para evitar um conflito maior, resolveu suspender a final.

Com a ajuda da coordenadora pedagógica da escola, Solange Narbosaa de Souza, o grêmio adiou a final e deu início a uma campanha de não violência, com direito a cartazes e muita discussão.

— A semifinal aconteceu duas semanas antes da gente entrar de férias, já tínhamos comprado lanche, medalha, tudo. Mas diante dos ânimos, suspendemos. A solução foi a gente pedir para cada equipe que foi para a final que criasse uma campanha sobre como combater a violência dentro da escola. A gente começou a mobilizar a campanha nesta semana. A realização da final agora só vai depender deles — avalia a diretora de esportes do grêmio Eduarda Vianna.

Entre as atividades do grêmio, os estudantes acompanham a prestação de contas da escola e também encaminham sugestões com reivindicações de alunos sobre projetos e investimentos:

— Aqui somos consultados na realização dos projetos, na apresentação dos dados pedagógicos e financeiros da escola e isso é muito interessante. Durante as férias de 2018/19 a escola fez diversas obras que foram reivindicações de alunos que faziam parte do conselho escolar no ano passado, como os bancos que temos hoje no pátio — comentou Claudionei.

O grêmio mantém uma página no facebook onde fala sobre o dia a dia da escola, mas também defende questões da comunidade.

— Ali fora tem um lugar que a comunidade derramava o lixo na rua porque ficava mais perto da coleta, mas aquilo ocupava até o meio da calçada e, por isto, a gente tinha que andar pela rua para desviar do lixo. Tiramos uma foto e a gente postou na página do grêmio. A gente marcou a prefeitura pedindo providências e para comunidade colaborar jogando o lixo no lugar certo e alguns dias depois, a prefeitura instalou uma lixeira no local — contou o presidente do gêmio, que está escrevendo um livro para contar a história da escola.

O estudante Mateus da Silva Coelho, de 18 anos, integrante do grêmio do Colégio Estadual Caic Nações Unidas, em Inhoaíba, na Zona Oeste do Rio, é undador do projeto CIOJ-RJ (Centro de Integração à Oportunidade Jovem) que visa a inserção do jovem no mercado de trabalho e em cursos de qualificação profissional.

— Hoje mesmo diante do caos inicial em nosso sistema financeiro estadual e nacional, consigo enxergar com esperança uma educação de melhor qualidade para os alunos do estado através de nossas vozes e representantes que lutam por isso juntamente conosco.

Para a orientadora educacional Simone Goettnauer, o retorno e fortalecimentos dos grêmios nas escolas é fundamental pra a retomada da comunicação entre alunos, professores e as famílias.

— Os grêmios não são entidades políticas não são nossos adversários, como foi visto por muitos anos, desde o período da ditadura. Eles não são uma ameaça, mas uma ferramenta fundamental de representação e de comunicação entre escola, aluno e famílias. Ainda mais nos tempos que vivemos. Hoje a comunicação, por mais facilitada que ela esteja, nunca esteve tão difícil. Com todos os mecanimos que temos, nunca foi tão difícil para as pessoas se comunicarem e se entenderem — avalia Simone.

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