CuriosidadesNotícias

Família argentina dá a volta ao mundo, há 20 anos, em um Graham-Paige de 1928

Em 385 mil quilômetros, por 116 países, Cande e Herman Zapp tiveram quatro filhos e viveram inúmeras aventuras. Agora, quase completando o giro pelo planeta, eles passaram pelo Rio

Enquanto arruma as coisas para pegar a estrada, Herman Zapp nota um pequeno vazamento no radiador e chama o filho:

— Wallaby, traga um ovo!

O menino obedece, curioso em saber o que virá a seguir.

— Abra a tampa do radiador e ponha a clara aí dentro. O ovo descerá até o ponto do vazamento e, quando a água esquentar, será cozido e tapará o furo. Vai funcionar por um tempo — explica Herman, repetindo uma receita da época em que seu carro, um Graham-Paige 1928, era novo.

Tehue põe um ovo na radiador Foto: Jason Vogel
Tehue põe um ovo na radiador Foto: Jason Vogel

E não é que funciona? Vazamento tapado, bagagem arrumada e lá vão eles para a estrada novamente.

A família Zapp — pai, mãe e quatro rebentos — roda o mundo a bordo do velho automóvel que, muitas vezes, serve de casa e escola. Em 20 anos, já percorreram 385 mil quilômetros, por 116 países.

Para ser exato, quando partiram de Buenos Aires, em janeiro de 2000, Candelaria e Herman sequer tinham filhos. Estes foram nascendo pelo caminho: Pampa (que hoje tem 17 anos), nos Estados Unidos; Tehue (15), na Argentina; Paloma (12) no Canadá e Wallaby (10) na Austrália.

Um elefante cruza o caminho do Graham-Paige na África Foto: Álbum de família
Um elefante cruza o caminho do Graham-Paige na África Foto: Álbum de família

Depois de muitos anos acompanhando as aventuras dos Zapp pela internet, pudemos conhecê-los pessoalmente em sua passagem pelo Rio. Ficaram por aqui uns dez dias, para ver o carnaval, e se foram na última quarta-feira, rumo ao Sul. É preciso, afinal, voltar à Argentina (via Uruguai) para dar o giro pelo mundo como concluído. Mas e depois?

— Depois, vemos… — desconversa o pai globetrotter.

O começo

Namorados desde a adolescência, Cande e Herman já estavam casados havia seis anos quando decidiram pôr em prática uma antiga ideia: viajar por terra ao Alasca, cumprindo, com certo atraso, um rito de passagem de muitos jovens argentinos. Seria um clássico “mochilão”, de carona e transporte público.

Sabendo dos planos, um amigo do casal ofereceu um carro para a viagem. Não era um carro qualquer, mas um Graham-Paige modelo 610, com quatro portas, azul escuro, fabricado em 1928. Um antigo dono entregara o veículo como pagamento de uma dívida — e o novo proprietário, que não tinha o que fazer com aquele automóvel antediluviano, decidiu passar a “encrenca” adiante.

O Graham-Paige após 20 anos e 385 mil quilômetros de estrada Foto: Jason Vogel
O Graham-Paige após 20 anos e 385 mil quilômetros de estrada Foto: Jason Vogel

— Fiquei apaixonado pelo Graham-Paige assim que o vi. E olha que nunca fui um cara muito ligado em carros ou mecânica. Sequer sabia o que era uma válvula — diz Herman, que é formado em Zootecnia.

E só mesmo alguém que não entende nada de automóveis poderia ter a ideia de encarar uma longa viagem a bordo de um carro produzido pela Graham-Paige. A marca de carros de luxo, afinal, fez seu derradeiro automóvel em 1940 e, como se pode imaginar, é quase impossível encontrar peças de reposição originais.

O início da viagem: o casal Zapp em 2000, no Altiplano peruano Foto: Álbum de família
O início da viagem: o casal Zapp em 2000, no Altiplano peruano Foto: Álbum de família

Mas a inocência e a simpatia dos Zapp, além do carisma do carro,  que lembra o sedã da Quadrilha de Morte do desenho animado “Corrida Maluca”, têm aberto muitas portas nos últimos 20 anos — e possibilitado contatos que nenhum viajante com um super 4×4 de último tipo jamais terá.

No dia 25 de janeiro de 2000, quando começaram a aventura rumo ao Alasca, rodaram somente 50km até que o carro desse o primeiro problema, em um de suas rodas. E, surpresa: logo ali perto havia um especialista em aros de madeira. Ao longo do tempo, esses pequenos milagres se repetiriam…

A chegada ao Alasca, em 2003, já com o primeiro filho. O carro ainda era 'curto' Foto: Álbum de família
A chegada ao Alasca, em 2003, já com o primeiro filho. O carro ainda era ‘curto’ Foto: Álbum de família

A viagem inicial levou muito mais do que os seis meses previstos. Na estrada veio a primeira gravidez. Nahuel Pampa nasceu na Carolina do Sul, Estados Unidos e, só em setembro de 2003, os Zapp (agora três) chegaram ao Alasca.

Solidariedade

Oficialmente, a fonte de renda da família é a venda do livro “Atrapa tu sueño”, lançado quando voltaram à Argentina pela primeira vez, em 2004 (temporada em que nasceu Tehue). A história da ida ao Alasca já teve edições em cinco idiomas.

O principal, porém, é que sempre aparece algum solidário para oferecer hospedagem, completar um tanque de gasolina, convidar a um restaurante ou até providenciar o transporte marítimo do carro.

A prole já completa, em 2010, a caminho do Tibet Foto: Álbum de família
A prole já completa, em 2010, a caminho do Tibet Foto: Álbum de família

Em 2008, os Zapp fizeram outra viagem para a América do Norte (Paloma nasceu em Toronto) e, em 2009, o Graham-Paige foi de navio para a Sydney, onde nasceu o caçula Wallaby, nome em homenagem a um pequeno canguru.

Depois de cruzarem a Austrália e a Nova Zelândia, viajaram com o carro pela Ásia (de 2010 a 2012), pela África (2012 a 2015) e pela Europa  (2015 a 2019), nunca rodando mais de 200km por dia.

A travessia de volta para a América do Sul foi em um navio à altura do Graham-Paige: o cargueiro a vela Avontuur, construído na Holanda, em 1920. Nos 20 dias de viagem entre as Ilhas Canárias e a Guiana Francesa, os carro descansou junto com um carregamento de barris de rum e vinho, enquanto os Zapp foram incorporados à tripulação.

A volta à América do Sul foi em um cargueiro a vela, de 1920 Foto: CHRISTOPH BOGNER
A prole já completa, em 2010, a caminho do Tibet Foto: Álbum de família

No Brasil, a família passou meses em Pipa, no Rio Grande do Norte, terminando de escrever o segundo livro de aventuras. E, no ano passado, o primogênito Pampa deixou o Graham-Paige para experimentar uma vida fixa na Argentina. Lá, pela primeira vez, foi matriculado em uma escola tradicional e deixou de estar com os pais 24 horas por dia.

Candelaria se encarregou de educaras crianças seguindo um programa de ensino à distância do Ministério da Educação argentino. E, claro, houve aulas de Geografia e História aulas aos pés do Everest, das pirâmides do Egito e das ruínas da Grécia Antiga… Cidadãos do mundo, os jovens Zapp falam inglês entre si e espanhol com os pais.

As fotos no Egito parecem quadrinhos das histórias do Tintin Foto: Álbum de família
As fotos no Egito parecem quadrinhos das histórias do Tintin Foto: Álbum de família

Os gastos não são altos, já que não há casa para manter, grandes contas para pagar ou hábitos de consumo exagerados. No Rio, os Zapp ficaram em um quarto de um hotel abandonado de Santa Teresa, hoje transformado em prédio residencial improvisado.

— Queríamos ficar em um lugar que fosse bem barato e perto do Centro  — conta Cande.

Na hora de partir, a família se transforma em uma equipe. Os meninos limpam o carro com panos úmidos, enchem o radiador e carregam o Graham-Paige. Entra muita coisa, até skates, prancha de surfe e uma bicicleta. Tudo vai se encaixando no lugar até ficar invisível para quem está de fora. Em menos de duas horas,  o galipão está pronto para seguir sua viagem.

Posto de controle: o mundo já passou por este para-brisa Foto: Jason Vogel
Posto de controle: o mundo já passou por este para-brisa Foto: Jason Vogel

— Quando ficamos muito tempo em um lugar, ou seja, mais de três dias, tiramos muitas coisas do carro – diz a mãe viajante.

Reparos constantes

O Graham-Paige cresceu em 20 anos de viagem, ganhando um enxerto 40cm no meio do chassi e da carroceria. De tão bem executado, o serviço (feito na Argentina) parece original, e é preciso ver as fotos antigas para notar a diferença. A parte traseira da cabine agora tem dois bancos vis-à-vis, para levar as quatro crianças.

No baú, de 1908, vão os alimentos e os apetrechos de cozinha Foto: Jason Vogel
No baú, de 1908, vão os alimentos e os apetrechos de cozinha Foto: Jason Vogel

Um baú, de 1908, foi incorporado nos Estados Unidos — leva comida e apetrechos de cozinha. Há ainda uma caixa metálica na lateral que foi feita na Indonésia, um serviço caprichado que acompanha os ressaltos da lataria do carro. O teto tem um alçapão interno que dá acesso a uma barraca. Por todo o assoalho, e na base dos bancos, há pequenos porta-trecos.

Motor é original e ronca grosso: seis cilindros, 3,1 litros e 62cv Foto: Jason Vogel
Motor é original e ronca grosso: seis cilindros, 3,1 litros e 62cv Foto: Jason Vogel

Os reparos são incessantes. No interior do Zimbábue, o bloco do motor rachou — mas logo ali havia uma oficina que fez o reparo usando até peças de trator. A Michelin já doou três jogos de pneus com o desenho original dos anos 20. Em Lençóis, na Bahia, descobriu-se que uma combinação de anéis do Corcel e do Fusca ajudaria a devolver compressão ao motor.

— Hoje eu entendo de mecânica. Mas só de mecânica do Graham-Paige — brinca Herman, que já desmontou o carro todo várias vezes. — Só a bomba de óleo nunca deu problema.

A família curte o carro sem cerimônias, subindo na capota e nos para-lamas para fazer os “serviços domésticos”. Não há, contudo, sinais de maus tratos. Quem vê de perto, sente que esse Graham-Paige tem muito mais vida do que qualquer clássico de coleção.

E lá vai o motor de seis cilindros em linha, 3,1 litros e 62cv, roncando grosso e cheio de saúde, consumindo, em média, 5km/l de gasolina. Se o carro é uma casa que se move a 50km/h, o mundo é o quintal dos Zapp.

Velocidade de cruzeiro de 50km/h, com consumo médio de 5km/l Foto: Jason Vogel
Velocidade de cruzeiro de 50km/h, com consumo médio de 5km/l Foto: Jason Vogel
Etiquetas

DEIXAR UM COMENTÁRIO

Política de moderação de comentários: A legislação brasileira prevê a possibilidade de se responsabilizar o blogueiro ou o jornalista responsável por blogs e/ou sites e portais de notícias, inclusive quanto a comentários. Portanto, o jornalista responsável por este Portal de Notícias reserva a si o direito de não publicar comentários que firam a lei, a ética ou quaisquer outros princípios da boa convivência. Não serão aceitos comentários anônimos ou que envolvam crimes de calúnia, ofensa, falsidade ideológica, multiplicidade de nomes para um mesmo IP ou invasão de privacidade pessoal e/ou familiar a qualquer pessoa. Comentários sobre assuntos que não são tratados aqui também poderão ser suprimidos, bem como comentários com links. Este é um espaço público e coletivo e merece ser mantido limpo para o bem-estar de todos nós.
Botão Voltar ao topo

Adblock detectado

Por favor, considere apoiar-nos, desativando o seu bloqueador de anúncios