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Fórmula 1 não sai de São Paulo, diz promotor do GP Brasil

Responsável por etapa desde 1980, Tamas Rohonyi diz que Bolsonaro foi levado a erro ao propor mudança de cidade

SÃO PAULO – Promotor do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1, o húngaro naturalizado brasileiro Tamas Rohonyi tem uma longa experiência na realização de corridas dentro e fora do país. Ele realizou os GP’s de Interlagos, em São Paulo, e Jacarepaguá, no Rio. Também colocou em pé as provas de Budapeste, na Hungria, e de Estoril, em Portugal. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, ele é taxativo:

— O GP do Brasil não sai de São Paulo, com certeza.

Rohony diz que ficou perplexo com a informação de que o presidente Jair Bolsonaro disse que o GP Brasil pode passar a ser disputado no Rio.

Segundo ele, o presidente foi levado ao erro ao dar essa declaração. Na entrevista, o Rohonyi cutuca o empresário J.R.

Pereira, que será responsável pelo autódromo carioca, ao dizer que organizar uma prova é caro e difícil, já que o país não tem nenhum aparato próprio para esses eventos.

Ele estima gastar US$ 50 milhões para colocar a prova de pé todo ano, com reformas, infraestrutura e contratação de pessoal (só no mês da prova, acredita empregar 8 mil pessoas). O empresário húngaro-brasileiro questiona com que recursos seu colega carioca fará a prova.

Proprietário da International Publicity, que promove o GP de Interlagos, Rohonyi diz que a proposta de levar a prova para o Rio de Janeiro não é nova.

No fim do ano passado, após a realização da corrida na capital paulista, ele ouviu do diretor-executivo e presidente do Conselho de Administração do Formula One Management (FOM), Chase Carey, que ele viajaria para o Rio a fim de ouvir uma proposta.

Era o projeto do autódromo de Deodoro. Para ele, o executivo norte-americano foi ingênuo.

Carey virá ao Brasil em junho para se reunir com Rohonyi, e conversar sobre o destino do GP do Brasil. Antes, no entanto, Chloe Targett-Adams, diretora global de relações promocionais e negócios para a F-1, deve vir ao país para se reunir com o empresário J.R. Pereira, no Rio. Ainda assim, o promotor da prova de Interlagos segue impassível:

— Estamos sabendo. Mas ela não tem poder de decisão nenhum — diz ele.

O contrato do GP do Brasil vence em 2020. Interlagos, no entanto, tem características que poucos autódromos tem. Com o de Spa Francorchamps, na França, e o de Silverstone, na Inglaterra, é um dos preferidos dos pilotos, por ser desafiador. E também é um dos únicos de “Nível 1” na América Latina, junto com o traçado de Hermanos Rodriguez, no México.

O Grande Prêmio de Fórmula 1 vai sair de São Paulo?

Não, com certeza, não. Por vários motivos. Fala-se muito de fazer um Grande Prêmio, até com certa autoridade, sem conhecer o assunto o suficiente. Nós temos uma organização que foi estabelecida 40 anos atrás, e vem crescendo e desenvolvendo uma experiência de como fazer Fórmula 1. É nossa especialidade. Temos uma equipe permanente de 50 pessoas, a maioria com 20 a 25 anos de prática. Fora isso, temos fornecedores especializados, desenvolvidos por nós, em São Paulo. Nós temos uma empresa de engenharia que faz toda a manutenção do autódromo, gente que participa da comissão da Federação Internacional de Automobilismo. Com essa organização que emprega 8 mil pessoas no mês da corrida nós conseguimos colocar o evento em pé.

E o que é preciso para colocar o evento em pé, além de ter a pista?

A Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA) não tem sua própria organização esportiva. Ela terceiriza a organização das provas, seja em âmbito nacional ou internacional. Então, não têm ambulância, bombeiros, fiscais, veículos. Nós montamos anualmente o evento.

Como o sr. encarou a notícia de que o presidente Jair Bolsonaro assinou um termo de compromisso transferindo a prova para o Rio?

Fiquei meio perplexo quando vi a notícia. Alguém acredita que, primeiro, vai construir um autódromo em um ano, um ano e meio? Eu montei o Grande Prêmio da Hungria, em 1986, com um governo comunista. O Exército participou do trabalho, tinha dinheiro que não acabava mais. Não tinha meio ambiente, licitação. Era outra configuração. Quando dizem para mim: “Nós vamos fazer a Fórmula um no ano que vem, ou em 2021” eu me pergunto: “Como, com que recursos?”. Não é apenas dinheiro, tem também os recursos técnicos.

Como funciona a estrutura do Campeonato de Fórmula 1?

Os donos do Campeonato Mundial são os americanos que são donos da holding Formula One Management (FOM). Eles compraram do antigo dono, CVC, uma empresa de capital privado inglesa, da qual Bernie Ecclestone era CEO e tinha ações. O Campeonato Mundial de F-1 é da Federação Internacional de Automobilismo (FIA). O que a FOM tem são os direitos comerciais, cujo Pacto de Concórdia, que rege as relações entre essas duas organizações, vem desde 1978. Quem manda no campeonato é a FIA, que é dona da F-1 e aprova tudo.

E o que é necessário para uma cidade sediar um GP?

Primeiro, (o empresário) tem que acertar comercialmente com a FOM. Depois, você vai na FIA e diz: “Eu tenho os direitos”. E eles vão perguntar como você vai operar o evento. Eles têm pessoal especializado, que faz vistoria, vê quem vai fazer atendimento, quem vai fazer isso e aquilo. Depois disso, a FIA coloca o evento no calendário, que é divulgado em dezembro. Mas (para entrar no calendário) a aplicação tem que ser aprovada seis meses antes. Então, supostamente, uma prova nova tem que ter um ano e meio de documentos assinados (para entrar no calendário). Nesse processo, você gasta dinheiro.

Então, o sr. acha pouco provável que uma prova no Rio entre no calendário de 2020, como Bolsonaro falou?

Essa história de 2020 foi um erro a que o (presidente Jair) Bolsonaro foi levado. Alguém anuncia que, em 2021, vai fazer no Rio uma corrida de F-1 num autódromo que não existe, cujo projeto, diferentemente do que aquilo que se publica, não existe. O que existe é o conceito, mas o projeto executivo que tem que ser aprovado na FIA não existe.

O empresário J.R. Pereira disse, em entrevista ao GLOBO, que o Grande Prêmio do Brasil, hoje, é deficitário e que não paga a taxa anual à FIA. Como o sr. responde a isso?

Não posso falar nada porque o acordo é confidencial e eu estaria em quebra de contrato. Se o J.R. Pereira tem essa informação, eu gostaria de saber de onde ele tirou. Não conheço o cara, não sei de onde ele tirou isso. O contrato está trancado em um cofre do meu advogado. Por que eles (FIA E FOM) não querem que se divulgue? Porque cada lugar varia (como é o contrato). Dizem que (o Grande Prêmio de) Mônaco não paga. Mas não sei, não tenho certeza.

O sr. tem conversado com a FOM?

Conversaram comigo em 2017, quando assumiram. (Disseram) “Quando terminar o contrato, em 2020, vamos querer tanto”. Eu respondi que não era possível eles receberem mais dinheiro. Se você tivesse o Ayrton (Senna) ou o (Nelson) Piquet, talvez poderia ser diferente. Mas o governo não dá subvenção. É muito difícil para um governante justificar uso de dinheiro público num evento. Fora que surgiriam suspeitas de lavagem de dinheiro. Nós nunca tivemos um tostão de dinheiro público. É claro que se as companhias públicas comprassem publicidade, isso poderia ajudar. Já tivemos isso, mas faz um tempo que não.

Se o sr. diz que está tudo certo, como, então, a proposta de um autódromo do Rio entrou em discussão?

O Chase Carey (diretor-executivo da FOM) foi um pouco ingênuo. Em novembro do ano passado, ele me disse que iria ao Rio. Ele foi e, aparentemente, aceitou essa ideia de que esse grupo – que repito, eu não conheço, mas tenho o maior respeito – quer fazer um autódromo em Deodoro. Aquilo é uma reserva, o grande problema hoje são as autorizações ambientais. É uma região com dificuldades. Agora, o projeto tem de passar por várias etapas. Supostamente US$ 200 milhões é o (custo do) projeto. Qual o business plan (plano de negócios)? Então, é assim: gastei US$ 200 milhões. Mas tem que fazer o evento, que custa no mínimo US$ 50 milhões pra colocar em pé. É uma mágica, que não sei qual é.

Já houve outras tentativas de colocar outros GPs no calendário?

Lembro de uma história do Bernie Ecclestone. Não é a primeira, nem a última vez, que apareceram propostas de novas provas de F-1. E a pergunta que ele fazia era sempre a mesma: “O que você quer de mim?”. Invariavelmente, o proponente respondia: “O que eu quero de você é um contrato”.

No caso do Rio, seria um contrato de 2021 a 2030. (Neste caso) Bernie teria dito: “Nenhum problema, você me dá uma garantia bancária”. Nunca ninguém deu (essa garantia). Em 1983, um grupo coreano apareceu com essa história e deu uma garantia bancária de US$ 5 milhões.

O grupo, que não é o mesmo que promoveu o GP da Coreia do Sul depois, não conseguiu honrar o contrato e ficou sem os US$ 5 milhões. Esse aspecto que eu acho que é crucial. Para assinar um contrato com a FOM, eles precisam de garantia.

Se o Chase Carey assina um contrato e não pede uma garantia, isso é muito estranho. Ele não entende de F-1, mas é um cara inteligente, não é nenhum idiota. Se (o contrato der errado e) o Brasil perde um GP, nunca mais reconquista. Se perde, tem um período de carência.

É regra da FIA. O Bolsonaro devia ter pensado um pouco.
O fato de o Bernie Ecclestone não estar mais no comando da F1 pode ter estimulado J.R. Pereira a tomar a frente desse projeto?

A Liberty Media (dona da FOM) não é do ramo esportivo. Eles são empresa de mídia, tem empresas de rádio, TV. O que eles querem é que as ações subam, que a receita e o lucro do campeonato cresçam. O que estão fazendo? À medida que os contratos vão terminando, eles vão falar com os promotores dessas provas e pedem mais dinheiro. Silverstone disse: “Não tenho”. O México perdeu uma subvenção do governo, de US$ 25 milhões, e disse que não dava. Um evento de F-1 não produz o suficiente para pagar US$ 25 a US$ 30 milhões.

Como foi essa história de Silverstone?

Houve uma conversa com Silverstone, na Inglaterra, que está sem contrato. A última prova é este ano. Imagine um Campeonato de F-1 sem Silverstone, os ingleses iam fazer um levante popular. Os americanos gostariam de fazer um contrato novo, mas Silverstone não tem apoio oficial. Têm que se virar com o que eles faturam. Eles não conseguem pagar US$ 25 milhões ou US$ 30 milhões para os americanos (FOM), a conta não fecha.

O senhor diria que a experiência conta para organizar um GP?

Fiz por 10 anos o Grande Prêmio de Portugal, a partir de 1980, com uma pequena reforma no autódromo de Estoril, que não é grande. Levou um ano e na primeira prova apanhamos como uns cachorros. Mas a Fórmula 1 era pequena e foi muito mais fácil. Mas, naquela época, o governo entrando pesado. Porque lá eles tinham um Fundo de Desenvolvimento do Turismo do Estoril, cujo presidente era também o principal dirigente do Automóvel Clube de Portugal, César Torres.

Mas a prova anterior, do Rio, em Jacarepaguá, também foi o senhor que organizou, certo?

Os dez anos de Jacarepaguá fomos nós que fizemos, de 1980 a 1990. Um autódromo existente que apenas passou por alguma reforma, na arquibancada, já que a pista estava ótima. Na época, o que era um box? Na internet, você encontra imagens daquela época, com os mecânicos de shorts, as pessoas sentadas no chão. Era uma coisa muito elementar. Eu me lembro que os jornalistas tinha uma sala pequena e a gente fornecia 10 máquinas de escrever. Hoje, é totalmente diferente. As exigências são completamente diferentes.

Qual é a participação do governo do estado de São Paulo e da prefeitura na negociação da F-1?

A Prefeitura é proprietária de Interlagos. Portanto, o contrato que a minha empresa tem com São Paulo é a cessão do autódromo para fazer o evento. O governador (João Doria), por sua vez, que é uma pessoa ativa e já foi prefeito, pensa qual é o resultado do evento. Isso é auditado. São R$ 325 milhões que se injetam na economia da cidade. Nas duas semanas da corrida, tem mais ou menos 8,5 mil pessoas trabalhando no evento.

Via
O GLOBO
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