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Grupo de Lima quer campanha internacional para ‘denunciar’ situação na Venezuela

Países reafirmam apoio a Juan Guaidó e temem estar 'perdendo capacidade' de mobilização contra o regime de Nicolás Maduro; em mudança de tom, grupo diz que Cuba pode ser 'solução'

BRASÍLIA E RIO — Em meio a reviravoltas políticas e protestos sociais na América Latina, os 13 países latino-americanos do Grupo de Lima se reuniram ontem em Brasília preocupados com a falta de perspectiva em relação a uma eventual queda do regime de Nicolás Maduro . Em declaração conjunta divulgada após uma reunião realizada nesta sexta-feira, no Palácio do Itamaraty, o bloco anunciou uma espécie de campanha internacional para dar visibilidade à questão venezuelana, com a exposição em fóruns multilaterais, regionais e na própria mídia internacional da “situação produzida pelo regime ilegítimo de Maduro”.

Criado no fim de 2017 no Peru, o Grupo de Lima reconhece como presidente da Venezuela Juan Guaidó, presidente da Assembleia Nacional venezuela, de maioria opositora. Com o apoio dos Estados Unidos, o bloco vem buscando isolar Maduro e integrantes de sua equipe, mas sem resultados eficazes. A insatisfação com esse cenário foi demonstrada, nesta manhã, pelo “chanceler” indicado por Guaidó, Julio Borges.

— O Grupo de Lima deve sair da literatura e ir para a matemática — afirmou, defendendo posições mais fortes contra países e delegações diplomáticas que apoiam Maduro.
Em resposta a Borges, o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo , assegurou, no fim da reunião, que “o grupo está, sim, mais voltado para a matemática do que a literatura”. Disse que todos os países do bloco estarão juntos com Guaidó, até que a situação se resolva naquele país.

‘Valores da Civilização’

Mais cedo, o chanceler admitiu que o Grupo de Lima pode estar perdendo a capacidade de mobilizar a opinião pública contra o regime de Maduro. Disse que a permanência do chavista até hoje no poder é um descrédito para os ” valores da civilização ” imanentes ao que chamou de três vértices: América do Norte, América Latina e União Europeia.

— A imprensa mundial, sobretudo a europeia e a americana, deve trabalhar a favor da democracia na Venezuela, que ainda não se transformou em uma causa para a opinião pública mundial — disse o ministro.

— Se um décimo dessa atenção fosse dedicado ao sofrimento dos venezuelanos, teríamos quebrado o silêncio e conseguido transformar a democracia venezuelana em uma causa para toda a opinião pública mundial — completou, referindo-se à intensificação das queimadas na Amazônia que chamou a atenção do mundo em setembro.

Como forma de reagir a essa inércia, o Grupo de Lima resolveu usar como estratégia a divulgação, à comunidade internacional, da gravidade da situação econômica, política e humanitária na Venezuela. Por exemplo, os países da região vão recolher e apresentar testemunhos de migrantes e refugiados venezuelanos sobre violações de direitos humanos naquele país.

Os países decidiram, ainda, convocar uma conferência internacional com o acompanhamento do Banco Interamericano de Desenvolvimento, à margem de sua Assembleia Geral que se celebrará em março de 2020, em Barranquilla, Colômbia, para apoiar os esforços de Guaidó para a implementação do “ Plan País ”. O plano, que prevê obras de infraestrutura e logística, foi concebido para resgatar a Venezuela da grave crise econômica e do colapso social.

Tom ameno sobre Cuba

Na declaração, o grupo faz um chamado a Cuba que, segundo o documento, poderia ser “parte da solução para a crise”.

“Reiteradamente, iniciativas de diálogo patrocinadas por diversos atores são manipuladas pelo regime de Maduro, que as transforma em manobras protelatórias para perpetuar-se no poder, que frustram a vontade democrática dos venezuelanos e que, portanto, devem ser avaliadas com cautela por parte da comunidade internacional”, diz um trecho da declaração.

O tom mais ameno contrasta com a visão do governo brasileiro, que acredita que os cubanos dão sustentação ao regime de Maduro. Na quinta-feira, o Brasil rompeu com uma tradição de 27 anos e votou contra uma resolução da Assembleia Geral da ONU condenando o embargo comercial americano a Cuba. O chanceler brasileiro disse que o país desempenha um ” papel nefasto ” na região.

Seguindo a decisão da Assembleia Nacional, o Grupo de Lima respaldou a postergação do mandato de Juan Guaidó para além de 5 de janeiro de 2020,  “até o fim da usurpação e a realização de eleições presidenciais livres, justas, transparentes e com observação internacional”. O bloco também demonstrou apoio às manifestações convocadas para o próximo dia 16, na Venezuela.

Outra decisão do grupo é o de adotar medidas adicionais de pressão sobre o regime de Maduro, “excluindo o uso da força”. A ideia é recorrer a novas sanções “que permitam avanços na transição democrática”.

Com muitos países da região em crise e alguns às voltas com protestos sociais, os governos que integram o Grupo de Lima adotaram uma atitude de “extrema cautela” que preocupa os colaboradores do venezuelano Juan Guaidó. A sensação entre eles é de que “foi dado muito oxigêneo a Maduro”.
_ Uma vez que a fera (leia-se Maduro) estava ferida faltou uma decisão mais contundente e agressiva. Agora a fera se recuperou e voltará para vingar-se de todos _ disse um colaborador de Guaidó, que pediu para não ser identificado.

No começo do ano, a oposição venezuelana e seus aliados na região tinham a expectativa de que o governo Maduro tinha seus dias contados. Os meses foram passando e os resultados esperados não foram alcançados. Hoje, dizem os opositores, “tudo ficou mais complicado”.

_ Tiveram medo da fera e agora estão todos extremamente cautelosos, quase covardes _ disse a fonte da oposição venezuelana.
O documento final do encontro reiterou a necessidade de encontrar uma saída à crise venezuelana mas não avançou em nada em relação a reuniões anteriores. Com a provável saída da Argentina após a posse do peronista Alberto Fernández o fôlego do grupo, o que resta dele, ficará ainda mais fraco.

 

Via
O GLOBO
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