Polícia

Mortes por fogo, espada e esquartejamento marcam ‘tribunal’ das milícias; mães de vítimas se unem por justiça

'Antes, tínhamos medo dos filmes de terror. Hoje, vivemos o terror ao vivo', desabafa X, que teve o filho assassinado por paramilitares em Nova Iguaçu

“Antes, tínhamos medo dos filmes de terror na televisão. Hoje, vivemos o terror ao vivo”. O relato é de uma mãe que teve o filho assassinado pela milícia no ano passado, em Nova Iguaçu. E não se trata de exagero diante da realidade imposta por grupos criminosos no Rio. Os cadáveres nos cemitérios clandestinos , muitos anônimos, são a face mais cruel do que acontece em territórios dominados pela força paramilitar .

Um dos casos mais emblemáticos, o do mototaxista Jonathas Freitas de Mendonça, de 19 anos, de Itaboraí, revela a dimensão das atrocidades: um miliciano preso contou ao Ministério Público estadual que o rapaz teve o corpo esquartejado com machado , ainda vivo , e teve o coração arrancado.Casado por três anos, o jovem deixou filhos gêmeos de apenas 1. Ele foi sentenciado à morte pela simples suspeita de que teria delatado um miliciano, que acabou morto pelo tráfico em março deste ano. Mas as investigações, de acordo com o promotor Rômulo Santos Silva, do Gaeco, apontam que Jonathas não era envolvido com bandidos.

Como ele, a vítima pode ser qualquer pessoa sobre a qual os criminosos levantem desconfianças. Costumam ficar sob o jugo dos paramilitares os inimigos do tráfico, usuários de drogas, quem não paga as taxas ilegais que cobram e desafetos de todo tipo. Aos parentes, só resta o desespero.

O controle sobre o território é imposto pelo terror. Em Queimados, Márcio Wagner Alves, conhecido como Japão, foi decapitado e jogado num poço artesiano usado como cemitério clandestino na cidade. Segundo o MP, a morte aconteceu após Márcio ter brigado com um primo de um miliciano, por causa de um passarinho. Na mesma cidade, um homem foi executado depois de esbarrar num balde de bebidas e discutir com um miliciano. O grupo mais conhecido na região é o Caçadores de Gansos, que, entre 2016 e 2017, chegava a postar fotos de suas vítimas nas redes sociais.

Em Seropédica, também na Baixada, há informações de fazendas com porcos e jacarés mantidos famintos para, rapidamente, darem sumiço em corpos de vítimas. Em Itaboraí, os matadores usariam uma espada para executar seus adversários. Lá, na área de Porto das Caixas, quatro jovens roubaram uma vaca e pediram a um açougueiro para desossar o animal. Um morador contou que os milicianos, ao descobrirem, assassinaram os garotos e atearam fogo ao açougueiro.

Os homens são maioria entre os mortos e torturados. Mas há denúncias de meninas e mulheres espancadas. Uma delas, de 13 anos, em Itaboraí, levou uma surra de oito horas.

No grupo de X., 92 mães trocam mensagens por aplicativos de celulares para se ajudarem na busca por seus filhos. Elas revivem lutas como a das Mães da Praça de Maio, associação que surgiu após os assassinatos e desaparecimentos durante a ditadura militar na Argentina. O filho de X. chegou a integrar a milícia, mas acabou passando para as fileiras do tráfico. Após um tempo escondido em Angra dos Reis, ele voltou e foi assassinado em Nova Iguaçu. Em 22 de maio do ano passado, a mãe, que ele chamava de “minha rainha”, recebeu um telefonema com um recado seco: “seu filho rodou”.

Via
O Globo

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