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O homem que descobriu da pior maneira que sua namorada era da Stasi

Ex-detento da temida polícia secreta da Alemanha Oriental, Hans Schulze conta detalhes de como o regime usava namorados e namoradas de fachada para espionar e prender milhares de pessoas

BERLIM — Quando Hans Schulze foi preso na comunista Alemanha Oriental nos anos 1980, ele nunca pensou que retornaria à prisão depois de ser liberado. Mas agora ele regularmente abre sua antiga cela para mostrar aos turistas como era a vida em uma cadeia mantida pela Stasi , a polícia secreta do regime.

O alemão oriental responsável por uma empresa de produtos químicos no Leste, Schulze estava indo para uma feira comercial em Leipzig (Alemanha Oriental) em 1986 quando parou em um posto à beira da estrada e conheceu uma mulher casualmente. Hoje com 66 anos, ele ficou fascinado pela moça e não demorou até começarem um relacionamento.

Essa divisão entre Leste-Oeste presente no romance animava Schulze, mas até hoje ele não sabe se a mulher o amava ou se estava apenas o usando.

— Não sabia que ela era uma informante da Stasi — afirmou o alemão, que hoje conduz visitas à prisão de Hohenschoenhausen, onde passou 13 meses detido, no Leste de Berlim.

— Só mais tarde, quando a acusação de espionagem foi trazida à tona, que tudo ficou diferente.

Os incidentes de tentação, duplicidade e traição que marcaram a espionagem na era da Guerra Fria (1947-1991) voltaram a ser revisitados antes do aniversário de 30 anos da queda do Muro de Berlim , em 9 de novembro, que deu início ao processo de reunificação da Alemanha.

Imagem de uma cela da prisão de Hohenschoenhausen, usada pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS
Imagem de uma cela da prisão de Hohenschoenhausen, usada pela Stasi, a polícia secreta da Alemanha Oriental Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS

Schulze descobriu após algum tempo que a mulher com quem estava envolvido fora casada com um homem que trabalhou para a Stasi, mas não sabia de todos os detalhes até que a história dela veio à tona em uma reportagem publicada em 2009.

‘Espiões Romeu’

Através de seu chefe de inteligência, Markus Wolf , a Stasi aperfeiçoou o uso de “espiões Romeu” — agentes que usavam suas técnicas pessoais de charme para atrair fontes Ocidentais de inteligência.

Sem que Schulze suspeitasse, sua companheira recebeu a tarefa de falar com viajantes e empresários vindos do Oeste. Ela disse que queria fugir para a Alemanha Ocidental e ele não sabe se era um desejo pessoal ou se a Stasi queria que continuasse trabalhando para eles, só que do outro lado do muro.

Três anos antes da queda do muro, Schulze foi preso na fronteira ao tentar deixar a Alemanha Oriental. Uma carta que a mulher escreveu sobre o trabalho de seu marido foi encontrada em seu carro, assim como uma quantidade de dinheiro que ela pediu que fosse levada para a Alemanha Ocidental. Ele foi preso e acusado de espionagem — no dia seguinte, sua namorada também foi detida, mas ele não sabe quais foram as acusações.

 

Com as chaves que foram usadas pelos guardas de Hohenschoenhausen, Hanz Schulze tenta mostrar aos visitantes, especialmente os mais jovens, como era a vida dos prisioneiros da Stasi Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS
Com as chaves que foram usadas pelos guardas de Hohenschoenhausen, Hanz Schulze tenta mostrar aos visitantes, especialmente os mais jovens, como era a vida dos prisioneiros da Stasi Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS

As denúncias de espionagem, tráfico humano subversivo e traição — que poderiam render um longo tempo de prisão — foram abandonadas, e ele acabou condenado a 2 anos e meio por crimes monetários e por ajudar em planos para alguém cruzar ilegalmente a fronteira.

— Posso te dizer que isso te atinge de forma dura. Você precisa absorver isso primeiro — disse, ao lembrar da manipulação emocional. — Agora sei que foi feito de propósito, eu os acuso por isso.

Contando a história

Schulze acha que por ser alemão ocidental ele recebeu um tratamento melhor do que o oferecido a outros prisioneiros em Hohenschoenhausen , onde a violência física era comum nos anos 1950, antes que métodos de interrogatório psicológico fossem adotados. Ele foi transferido para uma outra prisão antes de ser liberado em outubro de 1987. Sua namorada, que passou seu tempo de prisão trabalhando na cozinha de Hohenschoenhausen, foi liberada um mês depois. Os dois chegaram a se ver na prisão, mas o relacionamento acabou assim que foram soltos. Após a reunificação, ela se trabalhou como vendedora de carros e diretora de um hotel.

Muros que antes protegiam a então prisão de Hohenschoenhausen, hoje museu e memorial da Stasi, em Berlim Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS
Muros que antes protegiam a então prisão de Hohenschoenhausen, hoje museu e memorial da Stasi, em Berlim Foto: MICHELE TANTUSSI / REUTERS

No começo foi difícil para Schulze voltar à prisão após a reunificação, mas ele queria ter a certeza de que outros, incluindo crianças que nasceram bem depois do colapso da Alemanha Ocidental, saberiam o que ocorreu atrás daquelas paredes.

Ele agora conta a história para cerca de 455 mil pessoas que visitam Hohenschoenhausen todos os anos. Milhares de prisioneiros políticos foram detidos no local, que agora virou um museu e memorial.

— Esse período ainda me afeta, por isso conduzo as visitas guiadas, para levar a mensagem adiante.

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