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Uso de caveira no uniforme infringe regulamento do Bope, dizem especialistas

De acordo com especialistas em segurança pública, o item “quejando e acessórios” do regulamento da PM não prevê o uso de adereços

RIO – O uso de uma caveira de cabra no uniforme de um policial do Batalhão de Operações Policiais Especiais ( Bope ) durante ação no Morro de Mangueira na quarta-feira permanece um mistério. Ainda não se sabe se o PM fez uso do objeto pela sua religiosidade ou se se trata de uma forma de amuleto para protegê-lo durante operações. O fato é que a iniciativa infringe o regulamento de uniformes da corporação, segundo especialistas em segurança pública e um ex-policial do batalhão de elite da Polícia Militar. O item “quejando e acessórios” do regulamento não prevê o uso de adereços.

O ex-policial do Bope disse que o regulamento aborda o uso de uniformes em várias situações. Em especial, quando se trata em operações policiais em locais com elevado grau de risco.

– O regulamento visa à proteção do policial durante ações. Disciplinarmente, o policial não pode usar cordões, especialmente de ouro, anéis, objetos que possam feri-lo. Usar uma cabeça de cabra no peito é uma coisa ridícula. Aquilo pode machucá-lo. Durante a operação, na qual o policial precisa ser ágil e versátil, se um chifre daquele aponta para o seu corpo certamente será ferido. No regulamento, há um artigo que se chama “quejando e adereços” que trata muito bem disso – comentou o policial.

 

O babalaô Ivanir dos Santos, interlocutor da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa, disse estranhar a exposição do que poderia ser um tipo de oferenda a um orixá. Segundo ele, no candomblé, tudo o que diz respeito a abate religioso de animais não se torna público. Isso, no caso de o PM ser candomblecista. Ou que faça parte do grupo Caveiras de Jesus, de evangélicos, que há dentro do Bope.

– Achei estranha essa exposição. Primeiro, porque do ponto de vista do abate religiosos de animais, a pessoa come uma parte junto com outros e depois entrega para o orixá. Normalmente, isso nunca vem a público. Há algumas hipóteses que podem ser observadas: ele pode ser adepto de algum outro tipo de religião e usa aquele objeto como amuleto. Ou ele pode pertencer ao grupo Caveiras de Jesus, do Bope, e estar fazendo uma provocação equivocada dentro daquilo que ele acredita. Mesmo se for dentro da maçonaria, isso não seria exposto. Independentemente de qualquer coisa, é uma provocação – criticou Ivanir dos Santos.

Na quarta-feira, ao ser perguntado sobre o motivo de usar a caveira de cabra no uniforme, o policial, que usava balaclava e não tinha nem patente nem seu nome exposto no colete, respondeu de forma áspera:

– Uso o que eu quiser – disse.

Nesta quinta-feira, após operação no Morro da Serrinha, em Madureira, um policial do Bope viu a foto do colega feita no dia anterior e comentou.

– Deve ser da religiosidade dele.

Procurados, nem a Polícia Militar nem o comandante do Bope, tenente-coronel Maurilio Nunes da Conceição, se pronunciaram.

Mestre em Antropologia e oficial da reserva da PM, o coronel Robson Rodrigues chamou de aberração a exposição do policial do Bope. Para ele, o que aconteceu foi um desrespeito aos valores militares.

– Acho que foi um ato isolado. Certamente, o comandante (do Bope) irá averiguar a conduta do policial. A corporação preza pelos seus regulamentos. É preciso ter uma linha característica da uniformidade. Quando o policial entra para trabalhar na corporação deve deixar de lado de fora suas crenças. Embora o Quartel-General tenha uma igreja e haja várias capelas em unidades, a sociedade é laica e não devemos expor preferências. Existe uma comissão dentro do Estado-Maior que observa mudanças nos uniformes e é ela quem vai autorizar ou não qualquer alteração – comentou.

O uso de apetrechos por policiais do Bope já foi motivo de polêmica no passado. A adoção de toucas ninja, as balaclavas, foi criticada por especialistas em segurança pública. Até que, em 2015, o uso delas foi autorizado pelo então secretário de Segurança, José Mariano Beltrame. Um dos argumentos foi de que policiais do Bope não poderiam ser identificados, já que muitos deles moram em regiões de risco elevado.

Depois da balaclava, veio o keffiyeh , tradicional lenço palestino, que passou a ser usado por alguns policiais militares durante operações nas comunidades do Rio. Feito de algodão, ele se uniu à balaclava para dar mais proteção contra a poeira e a excessiva exposição solar.

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