Internacional

Venezuela se torna ponto de discórdia entre esquerda do Uruguai e governo evita tomar posição

Há três meses de eleições presidenciais, coalizão da Frente Ampla se divide entre quem considera ou não Maduro um ditador

MONTEVIDÉU – O governo de Tabaré Vázquez no Uruguai, por meio de seu Ministério das Relações Exteriores, distanciou-se dos principais líderes da Frente Ampla, coalizão que comanda o país, que, nos últimos dias, classificaram o regime de Nicolás Maduro na Venezuela como uma “ditadura”.

— Não cabe aos Estados definir a natureza do regime governamental de outro Estado— disse o vice-chanceler Ariel Bergamino à rádio Carve nesta terça-feira.

Faltando três meses para as eleições presidenciais de outubro, o posicionamento sobre a Venezuela tornou-se um ponto de discórdia dentro da Frente Ampla, uma coalizão de forças de esquerda em que, entre outros, coexistem socialistas, comunistas, social-democratas e ex-guerrilheiros tupamaros.

Daniel Martínez, ex-prefeito de engenheiro de Montevidéu que, com 30%, lidera as pesquisas individuais de intenções de voto para as eleições em outubro, emitiu uma resposta a declarações do ministro da Economia, Danilo Astori — uma figura fundadora da frente — na qual ele qualifica o governo Venezuelano de “ditadura”.

“Sim, camarada Danilo, para a esquerda a questão dos direitos humanos deve sempre ser um imperativo ético. O relatório (da Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos Michelle) Bachelet é categórico sobre a Venezuela e se trata de uma ditadura. Devemos continuar trabalhando em uma saída negociada, em que os venezuelanos estejam no centro“, disse o socialista Martínez.

O próprio ex-presidente José Mujica (2010-2015), que faz parte de um setor à esquerda do de Vázquez na Ampla, fundado por ex-guerrilheiros tupamaros e que já foi próximo do chavismo, afirmou que a Venezuela “é uma ditadura sim, na situação em que está não é nada além de uma ditadura”, embora tenha ressaltado que “há ditaduras na Arábia Saudita, há na Malásia e na República Popular da China”, segundo declarações coletadas pela Rádio Universal.

As afirmações desses líderes históricos geraram reações iradas dentro da coalizão que governa o Uruguai desde 2005, em particular vindas do Partido Comunista, que explicitamente apoia o governo de Maduro.

— Rotular significa adicionar mais um elemento a um problema que já é sério o suficiente — disse o vice-chanceler Bergamino, que acrescentou que seu país está trabalhando para “promover condições favoráveis para um diálogo” e reiterou que o Uruguai considera que são os venezuelanos que devem resolver sua “crise aguda”.

As diferenças internas na Frente Ampla sobre a Venezuela levaram a rusgas que foram acentuados quando o Uruguai decidiu apoiar a saída de Caracas do Mercosul em 2017, cuja entrada havia sido apoiada pelo governo de Mujica ao lado da argentina Cristina Kirchner e da brasileira Dilma Rousseff quando o Paraguai. o outro sócio, estava suspenso do bloco.

Essa decisão baseou-se na aplicação do Protocolo de Ushuaia sobre o Compromisso Democrático no Mercosul, que considera que qualquer membro deve gozar de vigência plena de suas instituições democráticas para continuar no bloco. Já então, o Mercosul considerava que havia uma “ruptura da ordem democrática” na Venezuela.

Nuvens no horizonte eleitoral
A oposição política, que, em conjunto, reúne mais intenção de voto do que a Frente Ampla para as eleições de outubro, reivindica há anos que o governo uruguaio se pronuncie contra o governo chavista liderado por Maduro.

O governo de Vázquez e seu ministro das Relações Exteriores, Rodolfo Nin Novoa, permaneceram firmes em sua posição de pedir o diálogo na Venezuela. Montevidéu enviou representantes para a posse de Maduro no início do ano, após eleições consideradas ilegítimas pela maioria dos países ocidentais.

O Uruguai não reconhece Juan Guaidó, parlamentar da oposição que se autoproclamou presidente do país caribenho e foi reconhecido por mais de 50 Estados. O Uruguai também Integra o chamado Grupo de Contato para a crise venezuelana promovido pela União Européia.

Montevidéu retirou-se no final de junho da Assembleia Geral da OEA realizada em Medelín, em rechaço à participação de delegados do líder da oposição Guaidó em nome da Venezuela.

O secretário-geral da OEA, o uruguaio Luis Almagro, que chegou a seu gabinete sob o comando de Mujica, foi expulso da Frente Ampla por suas críticas ao regime venezuelano.

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